domingo, 23 de junho de 2019


Aos poucos ela foi surgindo lenta e vagarosamente, e a cada novo momento foi avolumando-se, como tempestade que cresce e se forma ao longe e súbito arrebatou o que havia ainda em meio as faces singelas, foi alastrando-se como erva daninha fazendo suas raízes ainda mais fundo, sem deixar rastros, sem deixar vestígios, sem deixar lágrimas ou marcas, apenas foi consumindo o que havia para ser consumido, e deixando para trás um vazio, e somente escassos pensamentos de lucidez, quase nenhuma simpatia ou lampejos de aleluia.
Ela é voraz e silenciosa. Como mosca faz ferida na carne e deixa larvas que eclodem aos poucos e a carne devora, pouco a pouco de dentro para fora, é como ferrugem ou cárie, que corrói lentamente. Como chama ardente consome e, em seu rastro de glória somente cinzas permanecem. Como pegadas feitas na areia que o vento ou a maré apagam, é como sonho triste que insiste em retornar...
Sua expiação carracunda aos poucos pesa as faces e consome sem pressa as vísceras. É como vinho que com o passar dos invernos adquire mais vigor...
Ela aos poucos foi chegando e tomando forma, foi construindo suas ruínas sob os olhos ainda despertos que aos poucos foram se ofuscando, se fez sob promessas de confiança [mentiras] construídas com fé e sem suspeitas, no ópium das veredas das verdades...
Ela aos poucos foi surgindo e destruindo tudo no que se acreditava
Ela aos poucos foi surgindo e destruindo tudo
Ela aos poucos foi surgindo e...
Ela
A culpa




domingo, 26 de maio de 2019


Seqüestrada e vaga e nua saudade perene que brota do silêncio
Arranca suspiros e devaneios, e faz brotar sulcos profundos e feios
Despeja, derrama e vaza sobre si a culpa que arde em seu seio[s]
Caminha só pelas sendas da maldade se abstrai se distrai aos enleios
Enquanto miserável o desejo lhe toma à piedade, arranca deste corpo doente
A dolente dor inexorável 
Abre suas mãos, ergue-as as altitudes e cospe ao lado da cama vazia que não contem mais o calor de outro mesquinho corpo
Deixa-se esquecer do afeto sincero e manifesto que lhe acariciou os horizontes das faces arrancando-lhe dos lábios seu sabor de fruta doce e macia e de curvas mais secretas às virilhas que ardiam não fel, mas gosto adocicado de pecado que orbitavam escondidas às cavernas de teu lascivo e escuro céu

domingo, 19 de maio de 2019


Abraça-me, faz brotar em mim o que não carrego mais
Faz criar o que se perdeu em meio às cinzas de uma tarde de outono
Faz curar as sendas-chagas por onde destilo e arde meu abandono
Abraça-me e restitui à carne adormecida, [envelhecida pelo rancor, enternecida pela saudade, comovida pelas tempestades] seus desejos...
Ouça, escute o silêncio que se faz e aos poucos cria forma
Abraça-me lhe peço, só por um instante, pois nele irei guardar o infinito e com ele reconfortar-me...
Abraça-me e faz brotar dos espinhos que foram arrancados com violência, [recolhidos do pensamento fenecido pela ignorância, nascido em meio às trilhas do delírio] uma pétala que seja...